Data da pesquisa: 10 de junho de 2026
Objetivo: identificar pessoas do mundo tech/cyber associadas a ideias de direita, libertarianismo, criptoanarquismo, tecnolibertarianismo, neorreação ou conservadorismo tecnológico.
Nota importante
Esta lista não diz que todos são "conservadores" no mesmo sentido. No mundo tech, a direita aparece de formas diferentes:
- Libertarianismo / tecnolibertarianismo: menos Estado, mais mercado, mais liberdade individual, mais criptografia, menos regulação.
- Criptoanarquismo: uso de criptografia para reduzir o poder de governos, bancos, censura e vigilância estatal.
- Direita tech de elite: capital de risco, defesa de inovação acelerada, desregulação e competição tecnológica.
- Neorreação / Dark Enlightenment: corrente muito mais radical, antidemocrática e elitista.
- Conservadorismo tecnológico / defesa nacional: tecnologia militar, soberania nacional, indústria estratégica e alinhamento republicano/conservador.
A melhor categoria geral é ciberlibertarianismo ou technolibertarianism. O livro de David Golumbia, Cyberlibertarianism: The Right-Wing Politics of Digital Technology, argumenta justamente que parte da cultura digital nasceu carregando pressupostos de direita libertária, especialmente antiestatismo, individualismo e fé no mercado.
1. John Perry Barlow
Quem foi: cofundador da Electronic Frontier Foundation, letrista do Grateful Dead e um dos grandes porta-vozes da internet livre nos anos 1990.
Tipo de direita / posição: libertário civil. Não era direita conservadora tradicional. Era mais próximo do antiestatismo cultural: defesa de liberdade de expressão, privacidade, autonomia do ciberespaço e resistência à regulação estatal.
Ideia central: a internet deveria ser um espaço livre da soberania dos governos nacionais.
Por que importa: Barlow deu linguagem quase mística à internet como “novo território da mente”. Sua visão influenciou hackers, ativistas digitais, defensores de privacidade e a cultura da web aberta.
Obras e links:
- A Declaration of the Independence of Cyberspace — https://www.eff.org/cyberspace-independence
- The Economy of Ideas — https://www.wired.com/1994/03/economy-ideas/
- Biblioteca John Perry Barlow na EFF — https://www.eff.org/john-perry-barlow
2. Timothy C. May
Quem foi: engenheiro, participante do movimento cypherpunk e autor do Crypto Anarchist Manifesto.
Tipo de direita / posição: criptoanarquista e libertário radical. Mais antiestatal do que conservador. Sua política era centrada em criptografia, anonimato, mercado e fuga do controle governamental.
Ideia central: criptografia forte permitiria a indivíduos e grupos comunicar, negociar, contratar e trocar valor anonimamente, reduzindo radicalmente o poder do Estado.
Por que importa: May é um dos nomes centrais para entender a ligação entre cypherpunks, criptomoedas, privacidade digital e ideologia libertária.
Obras e links:
- The Crypto Anarchist Manifesto — https://groups.csail.mit.edu/mac/classes/6.805/articles/crypto/cypherpunks/may-crypto-manifesto.html
- Tradução brasileira: O Manifesto Criptoanarquista — https://cypherpunks.com.br/documentos/o-manifesto-criptoanarquista/
3. Peter Thiel
Quem é: empresário e investidor do PayPal, Palantir e Founders Fund. Uma das figuras mais influentes da direita tech de elite.
Tipo de direita / posição: libertário de direita, crítico da democracia liberal, pró-tecnologia, pró-capital de risco e próximo de redes conservadoras/republicanas.
Ideia central: política democrática convencional tende a bloquear resultados libertários; tecnologia, startups, novos territórios e novos arranjos institucionais poderiam reduzir a dependência da política tradicional.
Por que importa: Thiel conecta dinheiro, tecnologia, defesa, dados, startups, transumanismo, seasteading e política conservadora americana.
Obras e links:
- The Education of a Libertarian — https://www.cato-unbound.org/2009/04/13/peter-thiel/education-libertarian/
- Zero to One — https://www.penguinrandomhouse.com/books/234730/zero-to-one-by-peter-thiel-with-blake-masters/
- Perfil no New Yorker, No Death, No Taxes — https://www.newyorker.com/magazine/2011/11/28/no-death-no-taxes
4. Eric S. Raymond
Quem é: programador, defensor do open source, autor de The Cathedral and the Bazaar e figura importante da cultura hacker/open source.
Tipo de direita / posição: libertário. Sua defesa do open source não é socialista; é frequentemente ligada à autonomia técnica, liberdade individual, mérito, descentralização e crítica a controle institucional.
Ideia central: projetos abertos e descentralizados podem ser mais eficientes do que modelos fechados e hierárquicos.
Por que importa: Raymond ajudou a formular a ideologia do “open source” em termos compatíveis com mercado, engenharia e cultura hacker, diferente da linguagem mais moral/política do “free software” de Richard Stallman.
Obras e links:
- The Cathedral and the Bazaar — https://catb.org/~esr/writings/cathedral-bazaar/cathedral-bazaar/
- Diretório do livro The Cathedral and the Bazaar — https://www.catb.org/~esr/writings/cathedral-bazaar/
- Homesteading the Noosphere — https://tuxedo-esr.com/~esr/writings/homesteading/index.html
- Blog Armed and Dangerous — https://esr.ibiblio.org/
5. Curtis Yarvin / Mencius Moldbug
Quem é: engenheiro de software, criador do Urbit e escritor político sob o pseudônimo Mencius Moldbug.
Tipo de direita / posição: neorreacionário, antidemocrático, elitista e associado à chamada Dark Enlightenment / NRx.
Ideia central: a democracia liberal seria ineficiente e dominada por uma elite cultural-institucional que ele chama de “The Cathedral”. Sua alternativa envolve modelos de governo mais hierárquicos, próximos de uma administração corporativa.
Por que importa: Yarvin é talvez o principal exemplo de uma direita nascida em blogs, fóruns e cultura de engenharia, com linguagem de sistemas, governança, eficiência e “exit”. É influente em partes da direita tech americana.
Obras e links:
- A Formalist Manifesto — https://www.unqualified-reservations.org/2007/04/formalist-manifesto-originally-posted/
- Arquivo Unqualified Reservations — https://www.unqualified-reservations.org/
- Gray Mirror — https://graymirror.substack.com/
- Perfil crítico no New Yorker — https://www.newyorker.com/magazine/2025/06/09/curtis-yarvin-profile
6. Nick Land
Quem é: filósofo britânico, ex-professor, ligado ao aceleracionismo, ao CCRU e depois à Dark Enlightenment.
Tipo de direita / posição: difícil de classificar no começo, mas sua fase posterior é associada à neorreação, antigualitarismo e crítica radical à democracia liberal.
Ideia central: em sua fase aceleracionista, Land via o capitalismo e a tecnologia como forças desumanizadoras e aceleradoras. Na fase Dark Enlightenment, passou a articular crítica à democracia e defesa de estruturas hierárquicas/elitistas.
Por que importa: Land mistura filosofia continental, cyberpunk, teoria do capitalismo, ficção especulativa e internet. Influenciou tanto a esquerda aceleracionista quanto correntes neorreacionárias.
Obras e links:
- The Dark Enlightenment — https://www.thedarkenlightenment.com/the-dark-enlightenment-by-nick-land/
- Edição impressa de The Dark Enlightenment — https://www.imperiumpress.org/shop/the-dark-enlightenment/
- Visão geral Britannica sobre Dark Enlightenment — https://www.britannica.com/topic/Dark-Enlightenment
7. Balaji Srinivasan
Quem é: empreendedor, ex-CTO da Coinbase, ex-sócio da Andreessen Horowitz, autor de The Network State.
Tipo de direita / posição: tecnolibertário, cripto, anti-centralização estatal, com ideias próximas de governança em rede, soberania digital e comunidades opt-in.
Ideia central: a tecnologia permitiria criar novas comunidades, moedas, cidades e até países nascidos da internet — os “network states”.
Por que importa: Balaji representa uma direita/centro-direita tech que não começa pelo nacionalismo tradicional, mas pela ideia de saída: sair do Estado-nação tradicional e criar novas formas de comunidade política mediadas por tecnologia.
Obras e links:
- The Network State — https://thenetworkstate.com/
- Página de Balaji sobre o livro — https://balajis.com/p/preorder-the-network-state
8. Marc Andreessen
Quem é: criador do Netscape, investidor da Andreessen Horowitz e uma das vozes mais influentes do venture capital no Vale do Silício.
Tipo de direita / posição: techno-optimist, pró-mercado, pró-aceleração tecnológica, crítico de regulação excessiva. Nos últimos anos, sua posição pública se aproximou mais da direita americana em temas de tecnologia, regulação e inovação.
Ideia central: tecnologia é motor de progresso, riqueza e abundância; a sociedade deveria acelerar a inovação em vez de freá-la por medo ou regulação.
Por que importa: seu Techno-Optimist Manifesto virou texto-símbolo do clima e/acc, pró-IA, pró-crescimento, anti-degrowth e anti-pessimismo tecnológico.
Obras e links:
- The Techno-Optimist Manifesto — https://a16z.com/the-techno-optimist-manifesto/
- Podcast da a16z sobre o manifesto — https://open.spotify.com/episode/2Vpz1AWv7zSjJeSauI5FZu
9. Patri Friedman
Quem é: teórico libertário, neto de Milton Friedman, fundador do Seasteading Institute.
Tipo de direita / posição: libertário/anarcocapitalista.
Ideia central: criar comunidades oceânicas autônomas para experimentar novos sistemas políticos e legais, fora das restrições dos Estados tradicionais.
Por que importa: o seasteading é uma versão física da ideia libertária de “exit”: se o Estado é ruim, construa outra jurisdição. Isso dialoga diretamente com Peter Thiel, Balaji e a cultura tech de fuga institucional.
Obras e links:
- The Seasteading Institute — https://www.seasteading.org/
- História do Seasteading Institute — https://www.seasteading.org/history/
10. Cody Wilson
Quem é: ativista de direitos de armas, criptoanarquista e fundador da Defense Distributed.
Tipo de direita / posição: criptoanarquista, libertário radical, pró-armas e pró-liberdade de informação.
Ideia central: arquivos digitais, fabricação distribuída e criptografia tornam impossível ao Estado controlar completamente objetos, armas, informação e produção.
Por que importa: Wilson é um caso extremo de cyberativismo libertário: ele transforma a discussão sobre liberdade de informação em conflito direto com controle estatal, direito às armas e manufatura digital.
Aviso: por segurança, esta pesquisa não linka arquivos técnicos, plantas ou instruções de fabricação de armas. Os links abaixo são jornalísticos/editoriais ou páginas de livro.
Obras e links:
- Come and Take It: The Gun Printer's Guide to Thinking Free — https://www.simonandschuster.com/books/Come-and-Take-It/Cody-Wilson/9781476778273
- Entrevista na Reason — https://reason.com/podcast/2023/06/09/cody-wilson-the-future-of-gun-control-and-u-s-politics/
- Artigo do Victoria and Albert Museum sobre The Liberator — https://www.vam.ac.uk/articles/the-liberator-the-worlds-first-3d-printed-handgun
11. Palmer Luckey
Quem é: fundador da Oculus VR e da Anduril Industries, empresa de tecnologia militar/autônoma.
Tipo de direita / posição: libertário em origem, depois apoiador e financiador de candidatos republicanos e de Donald Trump; hoje representa uma direita tech ligada a defesa nacional, indústria militar e reindustrialização.
Ideia central: Silicon Valley não deveria evitar o setor militar; tecnologia avançada, IA e autonomia são estratégicas para defesa e poder nacional.
Por que importa: Luckey é um exemplo de mudança no Vale do Silício: do ideal VR/gamer/cyber para a defesa tech, drones, vigilância de fronteira e IA militar.
Obras, empresas e links:
- Anduril Leadership — https://www.anduril.com/anduril-leadership
- Blog de Palmer Luckey — https://palmerluckey.com/
- Rebooting the Arsenal of Democracy — https://www.rebootingthearsenal.com/
- TED: The AI arsenal that could stop World War III — https://www.ted.com/talks/palmer_luckey_the_ai_arsenal_that_could_stop_world_war_iii
12. David Golumbia — não é de direita, mas é indispensável para entender o tema
Quem foi: pesquisador crítico da cultura digital.
Tipo de posição: crítico da direita tecnológica, não representante dela.
Ideia central: parte importante da cultura digital foi moldada por valores libertários de direita: desconfiança do Estado, fé no mercado, individualismo radical e hostilidade à regulação democrática.
Por que importa: se você quer estudar seriamente a direita cyber/tech, Golumbia é uma fonte crítica fundamental. Ele ajuda a não cair na ingenuidade de achar que tecnologia é politicamente neutra.
Obras e links:
- Cyberlibertarianism: The Right-Wing Politics of Digital Technology — https://www.upress.umn.edu/9781517918149/cyberlibertarianism/
- Google Books — https://books.google.com/books/about/Cyberlibertarianism.html?id=m2Kw0AEACAAJ
Leitura recomendada por ordem
Se a ideia é entender o campo sem se perder, a ordem mais inteligente é:
- John Perry Barlow — A Declaration of the Independence of Cyberspace
- Timothy C. May — The Crypto Anarchist Manifesto
- Eric S. Raymond — The Cathedral and the Bazaar
- Peter Thiel — The Education of a Libertarian
- Marc Andreessen — The Techno-Optimist Manifesto
- Balaji Srinivasan — The Network State
- Curtis Yarvin — A Formalist Manifesto
- Nick Land — The Dark Enlightenment
- David Golumbia — Cyberlibertarianism
Conclusão simples
Sim, existe direita no mundo tech/cyber — e muita. Só que ela raramente aparece como conservadorismo clássico. Ela aparece principalmente como:
- defesa de criptografia contra o Estado;
- defesa da internet como território autônomo;
- mercado como organizador social;
- startups como alternativa à política;
- novas jurisdições, network states e seasteading;
- aceleração tecnológica;
- crítica à democracia liberal;
- e, em alguns casos, defesa explícita de hierarquia, autoritarismo ou nacionalismo tecnológico.
A versão mais moderada é libertária. A versão mais radical é neorreacionária. A versão mais recente no Vale do Silício mistura IA, defesa militar, cripto, venture capital, anti-regulação e política conservadora americana.
Did this resonate?
Related documents
- 001
- 002
- 003
- 004
- 005